terça-feira, 18 de junho de 2013

Jogos Imortais: Sport Lisboa e Benfica 1 Marselha 0

Este foi um daqueles jogos a que todos queríamos assistir. Estava a acabar a segunda melhor década em termos de prestações europeias do Benfica, e o nosso clube tinha a oportunidade de chegar à sua sétima final da prova rainha da UEFA (oitava no total), mas para isso tinha de superar uma grande equipa nesta segunda mão da meia-final.
Se a prestação no campeonato estava a ser de altos e baixos, o que levou a perda do título, a caminhada até esta fase da prova, tinha sido de um sucesso esclarecedor e imaculado: Derry City (6-1), Honvéd (9-0) e Dniepr (4-0)... Um golo sofrido... Recordemos esses momentos:
Era o Marselha que se apresentava a seguir... Pensava-se que coisa mais fácil do que o Milan ou o Bayern... O que se dizia antes da partida da 1º mão:
A primeira mão foi um pesadelo. O clube então presidido pelo pinto da costa francês, bernard tapie, tinha uma excelente equipa onde figuravam nomes como: Amoros, Tigana, Waddle (um dos meus favoritos), Papin, Francescoli, Deschamps e Mozer.

O Benfica ainda marcou primeiro por Lima:
Mas depois, especialmente na segunda parte, levou com um tremendo massacre mas ainda assim perdeu pela diferença mínima (2-1). Eis algumas fotografias dessa partida:
E a crónica:
Para a segunda mão, a 18 de Abril de 1990, o Benfica contava com um aliado de peso: O Estádio da Luz e os seus 120 mil lugares.  120 mil... Diz-se que lá estiveram muitos mais adeptos... Mais adeptos que bilhetes, disse-se por aí...
E quer tenham sido os tais 120 mil ou 130 mil, o certo é que os franceses tremeram, e não foi pouco.
A partida foi preparada da melhor forma por Eriksson e Toni:
O jogo não deu na televisão pelo que tive de me deitar na cama, ligar o rádio e colocar os phones e... sofrer até acordar toda a casa com aquela euforia que todos os restantes Benfiquistas devem ter sentido naquele glorioso momento.

Há resumos mais pequenos e maiores mas não há um que tenha todo o jogo pelo que um comentário às incidências da partida será, hipoteticamente, omisso. O certo é que foi uma partida táctica, talvez não tanto quanto a partida da final. Eriksson tinha à sua frente uma equipa de grandes jogadores e um treinador desconhecido (Gili) e foi minucioso na preparação da partida: Tinha de tentar marcar golos sem que essas tentativas dessem hipóteses aos seus adversários para fazerem o mesmo. Estes foram os jogadores que levaram o Benfica à final:
O Benfica deparou-se sempre com uma muralha sólida pela sua frente. O meio campo trabalhou muito mas os avançados pareciam estar muito estáticos e abafados pela defesa do marselha. Os franceses, na primeira parte, foram muito rápidos nas transições ofensivas e colocaram em sentido a equipa do Benfica. Se waddle e papin ainda remataram com algum perigo, só por causa de uma desatenção entre Mozer e castaneda, é que o Benfica ainda causou algum calafrio na defensiva contrária (Também na segunda parte, Samuel foi protagonista de um "slalom" incrível/inesquecível, para evitar que a bola entrasse na baliza do Benfica, após desentendimento com Silvino).

O Benfica estava a jogar numa espécie de 4-3-1-2. Thern, Hernâni e Paneira ocupavam-se do meio campo. Paneira era o mais livre e tanto estava na esquerda como na direita. Valdo era o estratega e Magnusson estava ali plantado no centro do ataque enquanto Lima flectia para o flanco onde não estivesse Paneira.

Tudo muito bem gizado por Eriksson mas frente a estes franceses não estava a ser fácil. A batalha no miolo era impressionante...
A segunda parte começou e o Benfica foi-se apagando. Vendo as coisas a ficarem feias, aos 52 minutos de jogo Eriksson não perde mais tempo e tira Thern (pura opção táctica) e Lima (gato morto naquela partida mas um dos heróis da caminhada europeia), para introduzir Pacheco e Vata. Era o sim ou sopas e não havia mais tempo a perder. Tínhamos um extremo do lado direito mas nenhum do lado esquerdo, pelo que Eriksson terá tentado expandir a defesa do Marselha de modo a tirar os avançados do sufoco e de modo a fazer recuar o meio campo adversário. Hernâni e Valdo tinham de dar conta do recado no miolo. A entrada de Vata era um acréscimo em termos de sentido de oportunidade, faro de golo, que até então não tinha existido no ataque do Benfica.

Com o passar dos minutos, o Marselha acabou por se ir tornando mais atencioso e deixou de tentar atacar por atacar. O Benfica, mesmo assim, não conseguiu acercar-se nem da forma como queria nem as vezes que o desejava, da área do seu adversário. Valdo já era o senhor da batuta e os seus remates foram os lances mais perigosos do ataque do Benfica (segunda e terceira fotografias do anterior conjunto de oito, ali em cima colocadas) nesta altura da partida.

Também se tornou difícil fazer o clássico chuveirinho. Os caminhos estavam tapados e o receio do contra-golpe tornou a organização do ataque mais lenta e menos objectiva.
Entretanto, Di Meco já estava a treinar a marcação a Vata. Desta feita foi com Magnusson e langenhove (o apito man belga) nada viu...
"Antes isso", terão pensado os franceses. "Raios o partam" pensaram os Benfiquistas. Os nervos estavam a aumentar e eu com, os phones nos ouvidos, a rebolar o corpo debaixo dos lençóis. A luta a meio-campo estava no auge, era necessário um misto de audácia, de arrojo e muita cabeça fria para não perder a concentração quer a atacar quer a defender.
Waddle tinha saído aos 75 minutos para a entrada de vercruysse, gili tinha apenas refrescado o ataque da sua equipa mas os franceses já estavam mais expectantes e decididos a não cometer erros. Mas eis que passava um minuto, dos oitenta já decorridos, e José Carlos inicia mais uma tentativa de ataque pelo seu flanco...
Foi aquele êxtase, um orgasmo total... Se em casa tudo temeu que tivesse acontecido um tremor de terra, eu fui o epicentro, imagine-se como terá sido no Estádio da Luz...
No rádio lá começaram a dizer a verdade, ou quase toda. Certo que Vata acabou por marcar golo com o antebraço... Porque di meco o estava a agarrar e a puxar!
A verdade, completa, é esta:
Vejam estas novas imagens que encontrei:
Digam lá! Langenhove não viu, o fiscal muito menos e di meco ficou a saber que na próxima vez teria de agarrar com muito mais força. E a malta só tinha de parafrasear Ricardo Gomes: "nem que fosse com a bunda da roberta close".
Pois claro...
Sem aquela agarradela, o angolano tinha marcado golo na mesma, e mesmo se a bola tivesse passado, estava lá o Paneira. Aquele lance estava destinado a dar golo... Não havia forma de ser outra coisa.
Fotografias dos dois jogos da meia final.
Mas ainda faltavam aqueles minutos finais de incerteza em que tudo e qualquer coisa mais pode dar em golo, e na rádio só se podia ouvir e nada ver... O Marselha foi à procura da sorte para a área do Benfica, a batalha a meio-campo era titânica e a bola começou a chegar perto da baliza de Silvino.
Veloso viu o cartão amarelo e ficou afastado da final, caso o Benfica lá chegasse... Engoli em seco, foi algo assustador! Para piorar, sucedeu esta falta:
Estava-se mesmo no fimzinho da partida e eu a ouvir pela rádio! Parece que ainda sinto o peso do receio... Tudo aconteceu assim:
Estávamos em mais uma final, havia uma onda a percorrer os corpos dos Benfiquistas onde o êxtase, a alegria e incredulidade estavam todos dentro do shaker e o dito shaker mexia e mexia sem parar... É que a partida da primeira mão tinha marcado as expectativas da massa adepta do Benfica, nós sabíamos que nos tínhamos safado de algo muito mau e que esta segunda mão não iria ser nada fácil.

Pena que Veloso se tenha sacrificado em prole da equipa, ele que merecia mais uma final depois de...

E o meu pai doido da cabeça ralhava lá do quarto dele porque se tinha que levantar as seis da matina. E eu aos saltos e o meu irmão estremunhado ainda sem saber o que estava a acontecer e a minha mãe, uma verdadeira bombeira a colocar água na fervura em todos os quartos... É difícil esquecer!
Era Vata o herói. Ele já tinha sido o principal artífice do titulo de campeão nacional conquistado pelo Benfica na época anterior. Vata, grande Vata que nunca foi muito admirado mas que um Benfiquista que se preze nunca o irá tirar da memória... Vata Matanu Garcia.
E a festa começou no final do jogo e durou muito tempo lá na capital... E a capital era em todos os lados em que haviam Benfiquistas...
Queixaram-se os franceses da mão do angolano, que o árbitro tinha favorecido de forma propositada o Benfica (quando se vê lá em cima que o belga nada conseguiu ver)... Franceses do Marselha que uns anos mais tarde viram o seu clube ser suspenso por alguns anos na uefa, viram o seu clube ser despromovido e o presidente preso, após a justiça francesa ter castigado o clube por corrupção. Cá em Portugal... Até com as provas aí à solta...

A crónica:
PS1: Um agradecimento às páginas da gloriosa esfera, e não só, de onde retirei as fotografias não etiquetadas.

PS2: Este artigo certamente poderá sofrer algumas modificações posteriores (última edição: 11-10-2016; 07-02-2017; 18-02-2017).
E Pluribus UNUM

5 comentários:

  1. Gloriosos tempos de uma equipa semituga... e que equipa! 120.000 lugares, cheguei a ir ver um jogo com o zbordem antes de ir abaixo, estava lotado, o bater de pés soava a um sismo, lembro-me qual foi a sensação (até do resultado roubado com penalidade de Jardel)mas não imagino qual terá sido neste jogo para quem lá esteve. sobre esta famosa noite confesso que estava na cama, mas nos dias seguintes só se falava no Benfica, que orgulho que senti.
    que falta faz (ao slb e portugal) um césar brito hoje em dia.
    obrigado pelos resumos minha chama, uma boa aragem para esta manhã cinzenta...
    Vito. g.

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  2. Que grande equipa tinha o Benfica nessa altura.Um misto de jogadores nacionais(Silvino,Veloso,Samuel,José Carlos,Paneira,Hernani,Pacheco,Cesar Brito,Chalana,Diamantino,Alvaro)e estrangeiros titulares dos respectivos países(Thern e Magnuson pela Suécia,Vata e Abel por Angola e Ricardo,Aldair e Valdo pelo Brasil).Quanto a esta eliminatória com o Marselha que tinha uma super equipa com Papin,Amoros,Tigana,Di Meco,Vercruysse,Germain,Deschamps e Sauzeé tudo internacionais franceses mais os estrangeiros Waddle,Mozer e o mago Francescoli,o Glorioso levou um autentico banho durante o jogo,saindo do Velodrome com um resultado lisonjeiro.No jogo da segunda mão o Estadio da LUZ estava com um ambiente espetacular,o Benfica teve dificuldades para furar a defesa contraria,mas felizmente o nosso Vata lá conseguiu desbloquear a situação.Este é sem sombra de duvidas um dos jogos míticos de um Benfica que se batia com qualquer um.Nesta eliminatória sempre me pareceu que os franciús estavam com um dose de cavalo nas veias.Aquilo na primeira mão até metia impressão,pareciam uns autênticos touros.Devia ser da amarelinha da altura.O que também deu grande gozo foi o pintinho francês " Bernardette"sair todo lixado do Estadio da Luz.

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    1. Sim Alexandre, o marselha da primeira mão foi super-sónico o que se estranha devido ao ritmo com que jogou a segunda mão.

      Talvez se tenha escrito certo por linha menos horizontais...

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  3. ORGULHO DE SER BENFICA!! ORGULHO DESTE BENFICA. EU ESTIVE LÁ NESSA NOITE. ANTES DO JOGO COMEÇAR, 5 MINUTOS ANTES, O REI SUBIU AO RELVADO E DE PUNHO ERGUIDO GRITAVA PELO NOSSO BENFICA. TODO O ESTÁDIO EXPLODIU...VER O EUSÉBIO DE PUNHO ERGUIDO A PUXAR POR NÓS É ALGO QUE GUARDO NO MEU CORAÇÃO. E GANHÁMOS, E FOMOS À FINAL, DESENHAR MAIS UMA PÁGINA DA NOSSA HISTÓRIA. GUARDO ESSA NOITE. GUARDAREI SEMPRE ESSA NOITE. QUANDO ME FOR EMBORA, TALVEZ ESSA RECORDAÇÃO SEJA MESMO A ÚLTIMA QUE PASSARÁ PELOS MEUS OLHOS TAL A FORMA COMO ME MARCOU. QUE ORGULHO DO MEU CLUBE, MEU DEUS, DO MEU ESTÁDIO, DOS ADEPTOS, DO FERVOR E DA MÍSTICA. PARA TI REI: VIVA O BENFICA!!! VIVA O BENFICA!!! VIVA O BENFICA!!!

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    1. Como escrevi, era novo demais para ir à catedral... Além de que morava longe demais...

      Ouvi o relato na antena 1... Tenho a gravação que fiz num K7 algures.

      O barulho era ensurdecedor...

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Ok digam o que bem entenderem.
Depois eu vejo